O que é demais sobra: jogar muitas partidas consecutivas traz efeitos negativos aos jogadores de futebol de elite?

Por Equipe PokerStars

No domingo foi no norte de Londres, na quinta foi na Bulgária. No domingo seguinte, em Southampton e na terça-feira em East London. Quinta-feira foi na Macedônia do Norte e domingo foi no Norte de Londres novamente. Depois, na terça teve uma partida no oeste de Londres, antes de voltar para o norte na quinta. Uma viagem a Manchester no domingo encerrou um período de duas semanas de viagem que teria exaurido Phileas Fogg. E isso sem levar em consideração os 90 minutos de corrida pelo campo de futebol a cada parada do caminho.

Picture1.jpgO calendário de setembro do Tottenham foi o mais movimentado de todos os tempos

Não é de se admirar que Jose Mourinho, o notoriamente sincero técnico do Tottenham Hotspur, da Premier League inglesa, tenha começado a falar sobre sacrifícios - tanto nas chances de sucesso de sua equipe quanto nos corpos de seus jogadores. Esse foi o calendário de viagens com o qual o Spurs deu início à temporada de 2020-21, com a equipe de Mourinho envolvida em três campeonatos e partidas de futebol empilhadas umas sobre as outras. O treinador sabia que provavelmente poderia esperar derrota em alguns jogos e, pior, lesões em jogadores de primeira linha.

“Eu gostaria de lutar pela Carabao (Cup, ou Copa da Liga Inglesa), mas não acho que posso”, disse Mourinho em meio a sucessão de jogos em setembro, preparando os torcedores para a derrota na terceira competição mais importante do futebol inglês. Referindo-se à lesão de Heung-min Son, o atacante do Tottenham, Mourinho acrescentou: “Acho que Sonny foi apenas o primeiro. Mais virão. Son foi o primeiro, mas mais virão.”

Parece perfeitamente intuitivo que quanto mais os jogadores são obrigados a jogar, mais seu desempenho cairá e maior será o risco de lesões. Nenhum corpo humano pode suportar o tipo de demanda física exigida de jogadores de futebol de elite, uma situação ainda mais preocupante com a pandemia de Covid-19, que comprimiu as listas de jogos em escalas de tempo ainda mais apertadas. No entanto, dois meses após a declaração de Mourinho, seu time do Tottenham estava na liderança da Premier League, nas quartas de final da Carabao Cup e na fase de grupos da Liga Europa com um jogo a menos. Son está no auge da sua forma física e marcou um total de 13 gols nos campeonatos, se enquadrando entre um dos melhores da Europa.

Isso levanta a questão: quais são realmente os efeitos dos jogos sucessivos nos jogadores de futebol - tanto em seus corpos quanto em suas performances? Vários estudos acadêmicos examinaram exatamente essa questão nos últimos anos e as conclusões podem ser surpreendentes.

Em outubro deste ano, Liam Harper, da Huddersfield University, Richard Page, da Edge Hill University, e Ross Julian, da University of Münster, na Alemanha, publicaram um estudo intitulado “O efeito de jogos realizados em um calendário congestionado no desempenho durante partidas de futebol masculino profissional: Uma revisão crítica sistemática com meta-análise“. Como o título sugere, a pesquisa foi séria e de amplo alcance, primeiro estabelecendo a definição de calendário congestionado ("um mínimo de duas partidas consecutivas de jogo, com um período de recuperação entre partidas menor de 96 horas"), depois declarando um objetivo claro ("Procuramos realizar uma revisão sistemática e meta-análise da literatura relacionada aos efeitos de jogos sucessivos no desempenho físico, técnico e tático em partidas de futebol profissional") e, em seguida, descrevendo uma metodologia. Esses pesquisadores acadêmicos estudaram 16 artigos sobre o assunto, analisando cinco particularmente de perto, antes de chegar a uma conclusão franca: "A distância total percorrida [ou seja, a quantidade de corridas que os jogadores da primeira divisão realmente fazem durante uma partida] não é afetada pelos efeitos de um calendário congestionado." Os dados pareciam apenas mostrar que quase não havia mudança na quantidade de distância coberta pelos jogadores, estivessem eles no meio de uma série de partidas sucessivas ou não. No entanto, embora os jogadores estivessem correndo tanto quanto o usual durante as partidas, suas performances não eram exatamente as mesmas. O estudo também observou que eles reduziam o número de sprints e as chamadas corridas de "alta intensidade" durante uma partida, em vez disso optando por corridas mais longas ou caminhadas em campo. Isso é significativo porque estudos anteriores apontam para a importância dos sprints de alta intensidade na produção dos momentos mais importantes de uma partida: os gols. "Sprints e corridas de alta intensidade ... geralmente estão ligados a ações notáveis ​​em um jogo, com um estudo alemão mostrando que 45% dos gols são precedidos por um sprint", escreveu Harper (et al) no estudo.

Harper postulou que as partidas sucessivas podem acabar custando às equipes do outro lado do campo também. Embora não haja muitas evidências focadas no desempenho defensivo das equipes, há indícios de que as com uma série de jogos sucessivos podem estar mais sujeitas a falhas de concentração na retaguarda. Um estudo analisou o atual campeão inglês, Liverpool, cujo técnico Jurgen Klopp também foi um crítico ferrenho do calendário de jogos do futebol moderno, e observou que os jogadores defensivos eram mais comumente pegos em posições incorretas quando talvez estivessem cansados ​​devido uma série de jogos consecutivos.

Picture2.jpgJosé Mourinho está entre os técnicos que reclamaram do calendário congestionado de partidas. (Crédito: A.Osipov / Creative Commons)

“Em um ciclo de jogos consecutivos, a sincronização entre os jogadores pode ficar reduzida”, escreve Harper. “Por exemplo, a distância entre um lateral direito e um ponta direita pode ficar maior. Assim, o lateral direito não se recupera tão rapidamente, está mais exposto a contra-ataques e os adversários podem encontrar mais espaço no lado esquerdo. O volante pode ter que trabalhar mais, e o time é pressionado ... Uma combinação de fadiga e menos tempo para trabalhar na tática e forma durante o calendário congestionado torna o trabalho do técnico ainda mais difícil.”

As circunstâncias, entretanto, podem oferecer uma oportunidade para alguns dos técnicos mais astutos de experimentar novos estilos de jogo. No início de dezembro, Mourinho revisou as táticas do Spurs e colheu grandes recompensas, mesmo que ainda reclamasse dos jogos consecutivos. Em um artigo no The Times, o jornalista James Gheerbrant analisou o desempenho do Tottenham no início da temporada da Premier League - um período durante o qual o Spurs emergiu como o improvável líder da liga, tendo sofrido menos gols na divisão e sendo o segundo a marcar mais.

“Taticamente, o Tottenham é um time muito diferente dos outros candidatos ao título”, escreve Gheerbrant, descrevendo um Tottenham “muito mais em forma, mais treinado” em comparação com a primeira temporada de Mourinho no comando. O Spurs se encontra mais atrás em comparação com outras equipes, ocupando a 13ª posição na liga em número de passes no último terço do campo, e também não pressionam a saída de bola do oponente, também ocupando a 13ª posição em interceptações, de acordo com estatísticas da liga. “Resumindo, o Spurs não demonstra muita posse nem pressiona a bola no ataque tanto quanto seus adversários”, escreve Gheerbrant.

O plano de jogo deve muito aos dois atacantes letais do Tottenham - o capitão da Inglaterra, Harry Kane, ao lado do já mencionado Son -, os quais permaneceram aptos e em excelente forma, apesar do receio de riscos de lesões. Mas também é interessante notar como as preocupações iniciais de Mourinho sobre o esgotamento dos jogadores realmente contribuíram para uma bem-sucedida revisão do seu estilo de jogo.

Picture3.jpg(Crédito: Nathan Rupert / Flickr)

A Premier League agora entra no período de Natal que é, tradicionalmente, repleto de jogos (nesse ano não haverá férias de fim de ano devido a pandemia) e estudos sugerem que a comissão técnica tem justificativa para se preocupar com o preparo físico de seus jogadores. O Estudo sobre Lesões em Clubes de Elite da UEFA (UEFA-ECIS) que, desde 2001, “recolhe dados de exposição e lesões de jogadores de cerca de 50 clubes de futebol de alto nível de 17 países diferentes” e é atualizado todos os anos, estabeleceu uma correlação consistente entre falta de dias de descanso entre os jogos e lesões comuns no futebol, principalmente as musculares, sofridas em campo.

“As demandas físicas de um jogador de futebol profissional são altas”, é como se inicia o relatório de 2013. “A distância total média coberta durante uma partida de futebol é de 10 mil a 11 mil metros, com alguns jogadores cobrindo até 14 mil metros, e quase um quarto dessa distância é percorrida em corridas de alta intensidade.”

Estudos mostram que a recuperação completa após uma partida de futebol leva vários dias. A fadiga remanescente até 72 horas após um jogo foi demonstrada em termos de diminuição do desempenho físico, bem como por meio de níveis aumentados de marcadores sanguíneos, indicando danos musculares e estresse oxidativo. Além disso, a preparação mental e as viagens antes de uma partida podem contribuir ainda mais para a fadiga.

Jogar partidas de futebol profissional, especialmente fora de casa, está associado a viagens longas e ambientes desconhecidos para dormir, o que pode ter um impacto negativo na qualidade de sono dos jogadores.”

Os jogadores este ano tiveram que jogar sem torcedores dentro dos estádios, o que os privou do aumento de adrenalina associado a uma multidão barulhenta, ao mesmo tempo que mantiveram as agendas de viagem punitivas. Klopp, o técnico do Liverpool, não está sozinho em lamentar uma lista cada vez maior de lesões e está pressionando as associações relevantes para que ajudem a reduzir a carga de trabalho. Ele quer que as autoridades do futebol permitam que os times possam fazer cinco substituições nos jogos e garantam intervalos mais longos entre as partidas.

“Não é sobre mim. Não se trata de Liverpool. É sobre o bem-estar dos jogadores”, disse Klopp. “Esta não é uma temporada normal. Esta agora é uma temporada que é quatro semanas mais curta, mas com a mesma quantidade de jogos ... E a ciência do esporte diz que você precisa de pelo menos 72 horas para se recuperar!”

Resta saber se Klopp conseguirá realizar seu desejo. Ao mesmo tempo, os contratos lucrativos com emissoras - que compensaram parte do déficit nas finanças dos clubes, exauridos pela ausência de torcedores - ainda exigem que os jogos dos melhores clubes sejam televisionados. Mas com os jogadores caindo de cansaço em campo, provavelmente as emissoras e as autoridades perceberão em breve que a qualidade de seus programas também irá decair.

E com tantas outras coisas para se sentirem infelizes, os fãs de futebol precisam ver suas estrelas brilhando intensamente. E isso significa que eles precisam estar na devida forma.


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