Pênaltis: uma questão de sorte, habilidade ou estratégia?

July 14, 2022emArtigos de Poker

Aquele foi o maior jogo da temporada do Manchester United: a final da Europa League contra o Villareal na PGE Arena em Gdansk, que estava praticamente vazia devido às limitações impostas pela Covid-19.

O jogo terminou em 1 a 1 e a prorrogação não conseguiu abrir o placar. Uma disputa de pênaltis era o que separava os times da glória do futebol.

Bruno Fernandez era o capitão do United naquele dia. Ele juntou-se ao capitão rival Raúl Albiol em campo para um “cara ou coroa” presidido pelo árbitro Clément Turpin.

O primeiro para decidir qual lado do campo, o segundo, para determinar quem bateria primeiro.

O pequeno detalhe que pode fazer a diferença

É uma formalidade realizada enquanto câmeras de TV escaneiam o rosto do jogador em busca de sinais de nervosismo.

Pois, como comentaristas e especialistas dizem há gerações, tudo o que você pode fazer é esperar que os deuses do futebol estejam sorrindo para você.

Assim, em meio a cenas de unhas sendo roídas e orações silenciosas sendo feitas por fãs ansiosos, foi fácil perder o fato de que tanto a primeira quanto a segunda disputa de moedas foram vencidas por Fernandez.

Também foi fácil perder o que aconteceu a seguir. Um erro de julgamento por parte de Fernandez, aos olhos de alguns. E um que poderia ter dado vantagem ao Villareal antes mesmo de um único pênalti ser cobrado.

Foi também um exemplo do porquê alguns no futebol afirmam que as cobranças de pênaltis são realmente uma questão de sorte. Mas, na verdade, são uma intrincada combinação de preparação, habilidade e estratégia.

O craque Bruno Fernandez raramente depende da sorte quando entra em campo. Mas será que ele deveria ter seguido um rumo diferente na disputa de pênaltis contra o Villareal?

Os pênaltis são uma questão de sorte. Ou não?

Os pênaltis só se tornaram uma parte regular do futebol na década de 1970. Antes disso, os jogos empatados eram geralmente decididos por sorteio (sem envolver habilidade ou estratégia).

E eles são fáceis de entender.

O time vencedor é aquele que marcar mais pontos em seus cinco pênaltis. Se as pontuações ainda permanecerem empatadas, eles entram em um período conhecido como “morte súbita” em que a primeira equipe a errar o gol, perde.

Ao longo dos anos, essa disputa resultou em alguns espetáculos dramáticos apreciados por todos, exceto pelos torcedores das duas equipes envolvidas.

E todos nós sabemos o porquê, certo? Até os especialistas.

O que dizem os especialistas…

Como a lenda do futebol e o técnico vencedor da Copa do Mundo Franz Beckenbauer disse…

“O pênalti é sempre um assunto incerto porque há muita sorte envolvida”. 

Isso foi corroborado por Peter Shilton, que enfrentou mais do que alguns pênaltis como goleiro da Inglaterra, somando 125 partidas entre 1970-90.

“O principal fator em uma disputa de pênaltis é a sorte novamente. Você tem que ficar calmo e focado, mas o que você mais precisa é de sorte.”

E quem poderia argumentar quando até os próprios jogadores pensam assim.

Hugo Lloris foi claro sobre o que custou a derrota nos pênaltis para sua seleção da França contra a Suíça na Euro 2020.

“Pênaltis são uma loteria. Não tivemos sorte.”

Até Marcelo, o gigante do Real Madrid e do Brasil, sabe como as coisas funcionam.

“As penalidades máximas são como a loteria, você perde quando a sorte não está ao seu lado.”

Revelando a melhor estratégia de cobrança de pênaltis

Até certo ponto eles estão certos. É uma mistura de sorte, nervos, coragem e todos aqueles elementos imprevisíveis.

Mas, existe uma maneira de reduzir essas variáveis? Uma forma de moldar o pênalti a seu favor?

Como o resto deste artigo vai explicar, a cobrança dos pênaltis, assim como estratégia de poker, têm muito mais a ver com habilidade e estratégia do que a maioria das pessoas pensa.

Entenda isso direito e, assim como no poker, você começará a entender mais onde os erros são cometidos e onde a sorte é menos determinante.

Por exemplo, veremos:

* Como um goleiro usou uma extensa pesquisa como estratégia para ajudar seu time a garantir a subida para a primeira divisão.

* Como outro goleiro recorreu a jogos mentais (e sem dúvida alguns dramas amadores) para ajudar seu time a chegar às finais da Copa do Mundo.

* Como alguns técnicos tentam usar a estratégia avançada de pênaltis mesmo antes do fim do tempo regulamentar.

* E como a seleção da Inglaterra transformou sua estratégia de pênaltis, de depender da sorte para contar com habilidade, o que quase acabou com 54 anos de dor.

Mas antes da prática, vamos cobrir a teoria.

Então, qual é o segredo?

Ben Lyttleton é um jornalista esportivo de futebol cuja especialidade é escrever sobre pênaltis.

Seu livro “Twelve Yards” é a bíblia sobre a arte de chutar a bola a uma distância de 11 metros e atingir a rede, driblando o goleiro. Ele também escreve artigos sobre o assunto no site https://twelveyards.substack.com/.

Ele dedicou anos e muitas páginas a como as penalidades são aplicadas, quem as cobra e uma infinidade de outros fatores.

Aqui está o resumo básico de sua análise:

* O time que bate o pênalti primeiro tem vantagem.
* O tempo de reação do jogador após o apito do árbitro é importante.
* A linguagem corporal de um jogador e sua comemoração após marcar o gol são fundamentais.
* Uma estratégia independente do goleiro é mais segura nos pênaltis.
* O primeiro e o quarto chutes são os mais importantes.

O que tudo isso significa exatamente?

Por que chutar primeiro é uma grande vantagem

Então, qual foi o erro de Fernandez na final da Liga Europa?

Ele permitiu que o Villareal batesse o pênalti primeiro.

Para Lyttleton, é clara a importância desta decisão. E embora seu trabalho aponte para tendências em vez de declarações diretas de fatos, isso torna o ato de atirar a moeda para cima muito mais significativo do que a maioria das pessoas supõe.

Veja este exemplo…

Imagine que você está jogando na final de uma grande competição. É o maior jogo de sua carreira e você está em uma disputa de pênaltis.

Após quatro pênaltis cada, o placar está empatado em 4 a 4.

Antes de você cobrar o quinto pênalti do seu time, seu oponente se aproxima para dar o último chute (eles venceram o sorteio e optaram por bater primeiro).

O árbitro apita e, após uma pausa de alguns segundos, o jogador começa sua corrida, marcando um pênalti perfeito e mandando o goleiro para o lado errado.

Eles levantam os braços em comemoração antes de voltarem para seus companheiros de equipe que cumprimentam o artilheiro com abraços e afagos na cabeça.

Agora é sua vez.

Agora você tem que cobrar seu pênalti sabendo que, se perder, seu time não apenas perde o jogo, mas também está fora da competição.

Qual pênalti você prefere bater?

Preste atenção ao tempo de reação de um jogador

Houve outro detalhe no exemplo acima que também é extremamente importante de acordo com Lyttleton.

O tempo gasto antes de o jogador bater na bola após o apito diz muito sobre o foco mental do cobrador.

Se um jogador começar sua corrida imediatamente ao apito, isso pode indicar nervosismo e falta de controle emocional. Uma ânsia de terminar esse momento cheio de ansiedade de uma forma ou de outra.

O oposto é o jogador que espera. Talvez respirando fundo e se recompondo antes de começar a corrida.

Essa não é uma regra fixa válida obrigatoriamente para todos os casos. Jogadores nervosos ainda marcam. Jogadores confiantes ainda erram. Mas a tendência sugere que essa pausa tenha um certo efeito.

A seguir, temos o elemento que requer mais habilidade.

Uma estratégia independente do goleiro funciona melhor

Vamos fazer uma definição rápida do que isso significa.

Uma estratégia “dependente do goleiro” é frequentemente usada pelo cobrador de pênaltis regular de um time.

Normalmente, um jogador usará uma corrida lenta e só decidirá onde colocar a bola na fração de segundo depois que o goleiro se comprometer a se mover em uma direção. É quase como um blefe.

Se bem executado, é praticamente imparável.

Mas há uma desvantagem crucial.

Fazê-lo bem requer um excelente timing e confiança, que nem todos os jogadores têm. Especialmente na final de uma grande competição. É por isso que o trabalho de Lyttleton sugere que a maioria dos jogadores deve usar a estratégia oposta: “independente do goleiro”.

Dito de outra forma, escolha o lugar onde vai bater, não mude de ideia e chute a bola o mais forte que puder. Nem olhe para o goleiro.

Quando um jogador inexperiente tenta enganar o goleiro, é aí que começam seus problemas.

O que nos leva à última das regras de Lyttleton.

Por que os pênaltis um e quatro são mais importantes

Você pode não ter prestado muita atenção à ordem dos pênaltis. Mas como Lyttleton escreveu, esse fator deve ser gerenciado corretamente.

O primeiro leva você a um começo positivo.

O quarto pode apenas mantê-lo nele.

E isso faz todo o sentido – e os fãs da seleção egípcia podem afirmar.

O problema com Mo Salah?

O Egito enfrentou o Senegal na final da Copa Africana de Nações em fevereiro. E se você ainda não tinha adivinhado, a partida foi para os pênaltis.

Mohammed Salah, o craque do Egito, e sem dúvidas um dos melhores jogadores do mundo, saiu para cobrar o quinto pênalti. Mas seu companheiro de equipe, Mohanad Lasheen, como substituto, e responsável pela quarta cobrança, teve seu pênalti – número quatro – defendido por Edouard Mendy.

Sadio Mane, companheiro de equipe de Salah no Liverpool na época, marcou o próximo logo em seguida, dando a vitória para o Senegal.

Salah, indiscutivelmente o melhor cobrador de pênaltis em campo, nunca chegou a chutar.

Nada é certo

Essas regras são rígidas e inflexíveis? Lyttleton deixa claro que apesar de alguns resultados serem apontados como mais possíveis do que outros, nenhum é totalmente previsível.

No entanto, isso coloca a sorte em perspectiva.

E há outra parte da equação que ainda não examinamos.

O goleiro.

O goleiro do Nottingham Forest, Brice Samba, foi a estrela da vitória nos pênaltis contra o Sheffield United. Mas o que estava por trás de seu desempenho notável?

Brice Samba fez o dever de casa corretamente

Brice Samba era conhecido como um bom marcador de pênaltis antes mesmo de seu time do Nottingham Forest enfrentar o Sheffield United na semifinal do Campeonato Inglês no início deste ano.

O que estava em jogo era uma vaga na final em Wembley, e o vencedor ganharia a promoção para a Premier League. Então as apostas eram incrivelmente altas quando o jogo foi para os pênaltis.

Havia câmeras por todo o lado focando nos rostos nervosos dos jogadores – todos, menos Samba.

Ele parecia calmo, tomando goles de uma garrafa de água enrolada em uma toalha. A perfeita poker face. Aquela garrafa seria sua companheira constante.

Oliver Norwood foi o primeiro a beter do Sheffield United e assistiu impotente quando Samba mergulhou para a direita para fazer uma boa defesa.

Depois que Forest marcou seu primeiro pênalti, agora era a vez de Conor Hourihane. Samba não se moveu – algo raro de um goleiro em uma disputa de pênaltis -, mas fez uma defesa instintiva de uma mão que bateu na trave e longe do gol.

Era como se ele soubesse exatamente onde Hourihane pretendia colocar a bola.

Com o placar de 3 a 2 para o Forest, Morgan Gibbs-White, provavelmente o melhor jogador do dia, cobrou o pênalti para o United.

Assistir Samba de perto nesse momento era fascinante. E também dizia muito sobre o que mais tarde seria revelado como seu plano de mestre.

Uma fração de segundo antes do pé direito de Gibbs-White bater na bola, você vê Samba começar a mergulhar para a direita. É para lá que a bola iria se dirigir, e o Forest estará na Premier League pela primeira vez desde 1999, em grande parte devido a Samba.

Você pode assistir ao vídeo abaixo. Preste atenção especial ao goleiro, Samba.

Foi sorte? Sempre tem alguma sorte envolvida, especialmente em relação à trave. Mas o que foi revelado foi outra coisa.

Tudo tem a ver com aquela garrafa de água.

Pregadas na superfície da garrafa e escondidas pela toalha, estavam instruções mostrando as preferências de pênalti de cada jogador do Sheffield United.

Alguns podem chamar isso de cola. Outros chamariam de planejamento meticuloso após um extenso dever de casa.

O “especialista” em pênaltis

Essa é uma maneira de te dar vantagem e “virar a sorte” a seu favor. Mas há outras formas de fazer isso também, incluindo fazer a substituição de um jogador por outro especialista em pênaltis.

A estratégia envolve o técnico substituir o goleiro por outro reserva que tenha um melhor histórico de sucesso em defesa de pênaltis, nos últimos segundos do tempo regulamentar.

Um dos exemplos mais recentes disso aconteceu na final da Copa da Liga Inglesa em Wembley.

O técnico do Chelsea, Thomas Tuchel, trouxe Kepa Arrizabalaga para substituir Edouard Mendy (o qual, você deve se lembrar, defendeu uma cobrança de pênalti do Egito levando seu time à vitória na final da AFCON. Mas vamos deixar isso de lado por enquanto).

Tuchel acreditava que Kepa era o melhor marcador de pênaltis. Ou talvez apenas pensasse que esses jogos mentais levariam os jogadores do Liverpool a achar que ele era.

Até Lyttleton estava convencido.

Mas o resultado não foi exatamente o que o Chelsea esperava.

Não só Kepa não defendeu um único pênalti, como foi sua cobrança, com o placar empatado em 10 a 10, que passou por cima do gol, entregando a Taça para o Liverpool.

Dança dos famosos?

Terminando com um resultado mais positivo, pelo menos para a Austrália, foi o desempenho de Andrew Redmayne.

Desempenho é definitivamente a palavra certa aqui.

Assim como Kepa, o goleiro reserva da Austrália, Redmayne, entrou nos segundos finais da prorrogação em um mata-mata da Copa do Mundo contra o Peru. Ele então tentou entrar na cabeça de cada jogador do Peru fazendo “dancinhas” durante a cobrança de pênaltis.

Por um tempo, aquilo pareceu uma exibição pública de excentricidade que não daria em nada. Então, quando ele defendeu a cobrança, se converteu em um golpe de gênio.

Sorte? Não exatamente. Habilidade? Talvez um pouco, se ao menos conseguisse permanecer na linha enquanto agitava os braços e as pernas. Estratégia? Certamente.

A nova política de cobrança da Inglaterra

Então, onde isso nos deixa?

Bem, vamos terminar com a seleção da Inglaterra. Eles parecem consistir em uma equipe que pelo menos tentou aprender com o passado. Coisa que seu técnico, Gareth Southgate, sabe melhor do que ninguém, sobre o que Lyttleton escreve em detalhes aqui.

Isso, pois foi seu pênalti perdido na semifinal da Euro 96 que encerrou aquele verão memorável para os torcedores da Inglaterra. Uma falta de pênalti que teve a própria mãe de Southgate perguntando a ele “Por que você não marcou?”

Naquela época, o então técnico (Terry Venables) costumava perguntar aos jogadores quem gostaria de cobrar o pênalti. Os mais confiantes se propunham ao desafio, os menos, ficavam quietos e evitavam contato visual. Não que isso seja uma crítica, até fazia sentido com tanto em jogo.

Avancemos para 2022 e as coisas estão um pouco mais organizadas. Os jogadores são bem treinados, sabendo muito bem que os pênaltis podem ir além dos cinco primeiros chutes para uma morte súbita, na qual os jogadores que inicialmente evitariam bater um pênalti não conseguem escapar da tarefa.

O próprio Southgate sabia quem escolher, deixando de fora Jack Grealish dos cinco primeiros pênaltis, apesar de seu desejo de cobrar um.

Mas mesmo com toda essa preparação alguém pode falhar

E para encerrar esse caso que demonstra haver mais na cobrança de pênaltis além da sorte, vale lembrar que também é um momento muito humano.

Mesmo os melhores jogadores não são perfeitos e é injusto culpá-los por um erro que, como vimos, pode ter sido mais devido à preparação do goleiro.

Então, talvez haja de fato um pouco de sorte envolvida.

O pênalti perfeito

Quanto ao pênalti perfeito, Antonin Panenka provavelmente detém esse título. Seu nome agora é sinônimo de “cavadinha”, com a bola passando lentamente pela linha do gol antes de tocar a rede, gerando uma grande humilhação ao goleiro, que fica totalmente sem reação.

Esse pênalti valeu a Euro 76 para a então Tchecoslováquia.

Ou então este.

Sorte? Não. Estratégia? Não. Habilidade? Não. Ainda assim, brilhante? Certamente.

Mas o que faz um grande pênalti? Assim como o de Panenka, é preciso algo fora do comum. De um ponto de vista neutro, poderia ser algo assim…

Pelo menos um dos envolvidos teve azar.

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