Por Equipe PokerStars
“Poker face” é um bom exemplo de expressão usada no poker que entrou no vernáculo comum. Quase todo mundo – quer sejam jogadores ou não – sabe que ter uma “cara de poker” significa esconder com sucesso suas emoções por trás de uma expressão impassível e irrevogável.
Então, novamente, eu me pergunto se a frase em si pode estar escondendo alguma coisa.
Patrik Antonius, não mostrando força. Ou fraqueza. Ou nada.
Existe um drama adolescente popular que ficou no ar ao longo dos anos 2010 chamado Pretty Little Liars. A série televisiva – baseada nos romances best-sellers da escritora Sara Shepard – é centrada em um grupo de garotas do ensino médio e gira em torno de um misterioso assassinato. Já foi feito um spin offbaseado no show, e outro está chegando – Pretty Little Liars: The Perfectionists– cuja estréia será na próxima semana.
A editora de entretenimento da revista Cosmopolitan, Emily Tannenbaum, está animada com a nova série. Ela gosta particularmente da abertura do primeiro episódio que foi disponibilizada como uma espécie de teaser para apresentar o novo cenário, onde a história de outro mistério de assassinato será contada em breve:
Você reconhece a música tema, é claro, que já esteve no topo das paradas internacionais, “Poker Face”, de Lady Gaga – mas aqui sendo tocada no violoncelo. “A música em si é perfeita para uma série sobre guardar segredos que literalmente têm a palavra ‘mentirosos’ no título”, observa Tannenbaum. Isso certamente ajuda a definir adequadamente um clima de urgência.
Mas espere um minuto. É a isso que se refere uma “poker face”? Ser um mentiroso? Ou apenas se refere a esconder algo? Ou manter um segredo?
Vamos cavar um pouco mais fundo e ver o que encontramos.
Quer ficar bom? Adote uma “poker face”
Em seu livro de 1875, Round Games at Cards, o autor britânico Henry Jones, escrevendo como “Cavendish”, apresenta vários jogos de poker e termos associados. Entre as “dicas” que ele fornece como conselhos gerais de estratégia, Jones lista que “possuir de uma boa poker face é uma vantagem”.
Cavendish prossegue explicando o que quer dizer com a frase, ou seja, que “ninguém que tenha pretensões de bom desempenho trairá o valor de sua mão por meio de gestos, mudança de atitude ou qualquer outro sintoma”. Buscando ter sucesso no poker? Não deixe o olhar em sua face revelar nada, pois se você o fizer, “um jogador experiente julgará pela expressão” o valor da sua mão.
Em outras palavras, praticamente desde o momento em que as pessoas começaram a escrever sobre estratégia de poker, não só era evidente desde o início que ocultar informações de seus oponentes era algo valioso, como já havia uma forma abreviada de descrever isso – adotar uma boa poker face!
“Caras de poker” longe das mesas
A frase logo assumiu uma espécie de significado figurativo também, entrando em conversas cotidianas para se referir a todos os tipos de olhares vazios, expressões desapaixonadas e respostas inexpressivas.
Durante os anos 20 e 30, Helen Wills foi a Serena Williams de sua época, conquistando 19 títulos do Grand Slam, incluindo oito em Wimbledon. Ela jogou com um estilo sossegado, sem emoção, parecendo ignorar tanto seus oponentes quanto a multidão, vencendo partida após partida, torneio após torneio.
O famoso jornalista esportivo Grantland Rice (que durante sua carreira deu muitos apelidos a atletas) descreveu Wills como “Little Miss Poker Face”(pequena senhorita poker face). O apelido pegou, um elogio claramente merecido (bem, tirando a parte do “pequena senhorita”).
Em sua peça experimental Dias Sem Fimde 1933 (no original, Days Without End, publicada 1934), o dramaturgo Eugene O’Neill inclui uma direção de palco na qual atribuiu a um personagem “a expressão afável sem sentido que é a acolhedora poker face do homem de negócios americano”. Parece adequado quando se pensa no mundo competitivo dos negócios, onde a informação pode e muitas vezes significa dinheiro.
Em 1943, o romancista Graham Greene escreveu uma resenha da biografia de Sir Arthur Conan Doyle, de Hesketh Pearson, autor das histórias de Sherlock Holmes. Greene intitulou seu pequeno ensaio de “The Poker-Face” e nele elogiou Pearson por ter descoberto o suficiente sobre Doyle para trazê-lo à vida para o leitor – isto é, por ter feito um trabalho de detetive como Sherlock e conseguido com sucesso “revelar o que estava por trás daquela poker face”.
Aliás, Maria Konnikova realiza feitos semelhantes de dedução em seu livro sobre Doyle e as histórias de Sherlock Holmes, Mastermind: Como pensar como Sherlock Holmes– uma ótima leitura para os jogadores de poker, mesmo que não seja especificamente sobre poker.
Nesse ensaio, Greene descreve o que é uma “poker face” de uma maneira especialmente poética.
“Esse rosto já foi visto mais de uma centena de vezes em balcões de bar – o cabelo lambido sobre a larga testa branca, o bigode pesado com formato pontudo, os olhos firmes e bem-humorados, o homem que é a causa da sociabilidade em outros homens, mas sabe exatamente quando a diversão deve parar”, escreve Greene. “Ele está vestindo um terno escuro (a jaqueta tem quatro botões) e botas bem polidas. Será que Sherlock Holmes conseguiria deduzir a partir dessa aparência magnificamente aberta algo que se assemelhasse à grotesca verdade?”
Jogos de esconde-esconde
Poderíamos listar muitos outros exemplos de caras de poker na política, esportes, negócios, guerra etc. Você entendeu a ideia. Ter uma poker face significa ser ilegível. Pode até haver alguma “verdade bizarra” que espreita debaixo daquela “aparência aberta”, mas é difícil dizer com certeza, e apenas os mais perspicazes, talvez alguém com poderes do mesmo nível de observação de Holmes, pode ser capaz de descobrir o que está sendo escondido – se houver alguma coisa realmente para ser descoberta.
No momento em que o grande fotógrafo Ulvis Alberts intitulou sua bem-conceituada (e muito cobiçada) coleção de fotografias de Poker Face(publicada pela primeira vez em 1981, com a Poker Face 2em 2006), seu título desfrutava tanto de significado literal, quanto simbólico, sugerindo que as fotos dos jogadores retratados guardavam segredos dignos de serem estudados.
O antropólogo David Hayano também escolheu deliberadamente o título para seu estudo de 1982 sobre os jogadores de poker da Califórnia: Poker Faces. Tal escolha indicava que Hayano acreditava que havia algo que merecia ser investigado nas expressões aparentemente impenetráveis dos jogadores sentados nas mesas de poker dos clubes da Califórnia – algo além do que os olhos podiam ver (para empregar outro clichê).
O livro de Aaron Brown, The Poker Face of Wall Street (2007), descreve afinidades entre o jogo de cartas e as finanças modernas, mostrando muitos paralelos entre as estratégias empregadas em ambos os campos. Há também outra conotação inteligente, que indica como Brown pretende revelar algo oculto sobre como Wall Street funciona.
“O método Patrick Antonius”
Dan Harrington e Bill Robertie forneceram para seus leitores uma espécie de exemplo extremo de uma “poker face” firme no Volume II de Harrington on Cash Games(2008), dado em meio a uma discussão sobre tells e como evitá-los nas mesas. Um método que eles recomendam é o que chamam de “O método Patrik Antonius” – isto é, a abordagem adotada pelo profissional finlandês.
“A defesa de Antonius contra o tell é classicamente simples”, escrevem os autores. “Depois de fazer uma aposta importante, ele apenas se senta à mesa, rígido como uma prancha, e olha silenciosamente para um ponto fixo no espaço.”
Sua cara de poker, eles julgam, “dá uma boa impressão de um transe catatônico”, e depois de seu oponente finalmente agir, ele “retorna a seu corpo e se junta novamente ao mundo dos vivos”.
Mas … espere … você parecia tão sério antes!
Conclusão
Quando ouço a expressão “poker face”, essa é a imagem que geralmente me vem primeiro em mente – um jogador de poker com a fisionomia rígida e cuja expressão é totalmente neutra, sem comunicar nada. O tipo de coisa que Mike McDermott está tentando fazer em Rounders quando Johnny Chan pergunta se ele tinha, e Mike diz “Sinto muito John, não me lembro”.
Ou seja, eu não necessariamente faço a mesma associação entre ter uma cara de poker e mentir como a escritora da Cosmofaz, embora seja interessante pensar em como as pessoas que não jogam poker podem ter esse instinto. Se for esse o caso, isso pode sugerir algo significativo sobre como o “mainstream” vê o poker – como um jogo que envolve contar mentiras.
Agora pensando no assunto, acho que Mike McDermott estavamentindo para Chan. Suponho que é nisso que Lady Gaga também está, quando se vangloria de que os outros não conseguem ler sua poker face. “Eu juro, eu juro”, ela canta, implicando que com sua expressão ela intencionalmente tentou enganar.
Afinal, obscurecer a verdade, de qualquer forma, pode ser chamado de mentira de omissão.
É assim que eu entendo, de qualquer maneira.
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