POR MATTHEW WARBURTON
A vida é cheia de coincidências. Tanto que às vezes parece que o Universo está conspirando para criar momentos de acaso, encontros casuais e resultados fantásticos.
Ou não…
Como jogadores de poker, não devemos pensar dessa forma, pelo menos não enquanto estamos sentados às mesas.
O poker é um jogo de lógica. A matemática das probabilidades e da variância pode nos ajudar a entender o que está acontecendo durante o jogo, não importa o quão inusitados os resultados possam parecer.
A lógica pode explicar, por exemplo, porque seu par de Ases às vezes perde para um par de dois (pares de dois ainda ganham em 19,5% das vezes). A lógica ainda pode explicar porque é possível experimentar uma onda de sorte (hot streak) ou uma maré de azar (bad run). E, se você tiver a sorte de vencer um torneio de poker daqueles de mudar a vida, a lógica também explica como a junção de todos os fatores foram responsáveis pela sua vitória, mesmo se ela tiver acontecido no dia do seu aniversário.
Indiscutivelmente, não há espaço para pensamentos vagos, seja no poker online ou no ao vivo. Entretanto, mesmo os profissionais cuja carreira depende desse poder da lógica têm que admitir, coisas estranhas e maravilhosas podem acontecer nas mesas de poker.
A mão de Doyle Brunson
Talvez não haja ocorrência mais estranha e nenhum exemplo mais claro de coincidência ou ‘destino’ do que a vez em que Doyle Brunson ganhou o Main Event da WSOP dois anos seguidos – ambas as vezes vencendo a batalha de heads-up com a mesma mão, e uma bem ruim inclusive (10-2).
Doyle Brunson é um dos jogadores de poker mais famosos de todos os tempos. Ele jogou profissionalmente por mais de 50 anos, durante os quais ganhou 10 braceletes da WSOP. Claramente, ele não é um jogador que confia na sorte quando se senta às mesas de poker.
No entanto, qualquer espectador poderia pensar, incluindo talvez até ao próprio Brunson, que algum tipo de força invisível conspirou para torná-lo um dos único quatro jogadores a vencer o Evento Principal duas vezes. Quem sabe…
A primeira vez…
Voltemos ao Main Event da WSOP de 1976. O torneio chega ao heads-up e, naquela época, o vencedor levava tudo. Doyle Brunson e Jesse Alto são os últimos jogadores restantes.
Ao contrário de Brunson, Alto era um jogador amador de poker que tinha um emprego fixo como vendedor de carros. Brunson possuía uma grande liderança em fichas no heads-up e estava procurando se aproveitar do tamanho dos stacks, além de usar sua vantagem em termos de habilidade.
Apesar disso, a convencional estratégia de poker afirma que um par 10-2 não configura uma mão muito forte. Quase sempre os jogadores que caem com ela dão fold, mesmo estando no heads-up contra um jogador mais fraco. Apenas Brunson sabe o que o levou a jogar a mão descrita a seguir. Talvez ele apenas tenha tido “um pressentimento”?
Doyle Brunson na WSOP de 1976
Jesse Alto dá um raise com um AJ. Brunson paga com o 10-2 de mesmo naipe. O flop vem com AJ-10. Brunson faz um shove com seu par inferior, transformando sua mão em um grande blefe, com o intuito de colocar pressão sobre o short stack de Alto e forçar o fold.
Claro, Alto nunca desiste de uma mão tão forte como dois pares mais altos. É uma decisão fácil. Alto está bem à frente e parece estar prestes para dobrar sua pilha de tamanho.
O turn vem com um 2, dando a Brunson dois pares mais fracos, e deixando-o ainda mais atrás na mão. Então, o river traz um 10 para dar a Brunson um full house muito improvável de runner runner (isto é, ele conseguiu justamente as cartas de que precisava). E assim, Brunson levou os 220 mil dólares do Main Event da WSOP.
As chances de Brunson ganhar essa mão eram mínimas, ainda menores pós-flop quando todas as fichas estavam em jogo. É uma das piores bad beats da história da WSOP. Mas bad beats acontecem o tempo todo e, no grande esquema das coisas, essa mão dificilmente poderia ser considerada como a maior coincidência do poker.
Até ela acontecer novamente…
A segunda vez…
Nos transportemos agora para o ano seguinte, quando o Main Event da WSOP de 1977 estava chegando ao fim. Doyle Brunson se encontra mais uma vez no heads-up com uma confortável liderança em fichas. Desta vez, ele enfrenta o colega americano, também profissional de poker, Gary “Bones” Berland.
Brunson olha para suas cartas e novamente vê os mesmos 10-2, mas desta vez, de naipes diferentes. Berland tem um 8-5. Ambos os jogadores entram no pote. O flop vem com 10-8-5, dando a Brunson um par alto e dois pares a Berland. Em mãos de poker como essas durante um heads-up, as fichas quase sempre vão para o meio.
Berland aposta e Brunson paga.
O turn vem com um 2 e Brunson alcança dois pares superiores. Brunson aposta, Berland vai all-in e Brunson paga.
Com o tempo, Brunson já está bem à frente quando a maioria das fichas são colocadas no meio. Mas, como se já não fosse o bastante, para adicionar mais uma dose de coincidência cósmica, o river vem com um 10, dando a Brunson um full house… outra vez!
E com isso, o campeão vigente vence o Main Event da WSOP pelo segundo ano consecutivo, ambas as vezes com uma mão inicial de 10-2, e ambas as vezes fazendo um full house no river.
A partir de então, o 10-2 ficou conhecido como a “mão de Doyle Brunson” e também como a de maior sorte no poker. E agora estamos lhe conferindo o título de coincidência mais estranha que já aconteceu nas mesas de poker.
Porque, fala sério, duas vezes, seguidas?!
Doyle Brunson é supersticioso?
Vamos ser claros, jogadores de poker profissionais, pelo menos em teoria, não tendem a ter “mãos favoritas” (embora ninguém possa negar a beleza estética das 6-8). Como o autor de Super/System, um dos livros de estratégia de poker mais influentes de todos os tempos, afirma, é improvável que Brunson tivesse uma tampouco… pelo menos não até depois de vencer o Main Event da WSOP duas vezes com seu 10-2.
Mas mesmo o mais lógico e cínico dos pensadores tem que admitir a estranheza de tudo isso. Teria o próprio Brunson olhado para o 10-2 naquele segundo Main Event da WSOP e sentido algum tipo de pulsação cósmica? Será que ele “apenas sabia” que tinha que ser daquela forma para que pudesse ganhar?
Apesar de seu óbvio conhecimento sobre poker, Doyle Brunson é uma pessoa supersticiosa. Antes de sua aposentadoria, ele era conhecido por usar um isqueiro preto com o logotipo do Ghostbusters (os Caça-Fantasmas) como protetor de cartas, o que ele acreditava ter contribuído para sua boa sorte nas mesas de poker.
Brunson chegou a receber uma oferta de US$ 3.500 de Howard Lederer para se separar do protetor de cartas da sorte, a qual ele rapidamente recusou. Sempre malandro, Brunson costumava alugar Casper, como apelidou seu protetor de cartas, a uma taxa de US$ 200 por meia hora. Aparentemente, a sorte não pode ser comprada nem vendida, mas pode ser alugada.
Independentemente do que Doyle Brunson realmente acredita quando se trata da relação entre habilidade e superstição, não há como negar que ele esteve envolvido em uma das coincidências mais estranhas que já aconteceram em uma mesa de poker.
Tiremos o chapéu para Doyle Brunson, oficialmente aposentado após 50 anos como jogador profissional de poker
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